
Como sobrevivi ao Mal de Altura em La Paz sem cortar a viagem: meu diário de aclimatação
Descobri que a única forma de aproveitar a Bolívia sem sofrer foi ignorar o roteiro original nos primeiros dias e focar em uma desescalada estratégica para dormir.

Quando o avião tocou o solo em El Alto, a 4.150 metros de altitude, eu achei que estava preparada. Tinha lido todos os fóruns, comprado remédios na farmácia em São Paulo antes de embarcar e feito cardio por um mês. O erro foi acreditar que a preparação física substitui a biologia. Dentro de quatro horas, estava deitada em um hotel no centro de La Paz, com uma dor de cabeça que parecia um torno apertando minha testa e uma náusea que não me deixava nem olhar para a comida.
O pânico de estragar o roteiro de duas semanas pela Bolívia era real. No entanto, a resposta não foi forçar o corpo a continuar, nem desistir. Foi uma estratégia de "fuga tática" para dormir mais baixo e uma imersão total na medicina local. O que aprendi nesse processo transformou a viagem e salvou meu seguro saúde de um acionamento desnecessário.
A primeira lição de segurança em grandes altitudes é brutalmente simples: o seu corpo manda, o roteiro obedece.
O choque real na aterrissagem
Desci do ônibus que conecta o aeroporto ao centro da cidade. O ar é seco e fino. Eu sentia falta de ar apenas carregando a mochila de rodinhas. Chegando ao hotel, a altitude da cidade já é elevada, mas o desempenho cai drasticamente. Tentei caminhar até a Rua Jaén para bater um ponto turístico e me vi ofegante após quadras. A noite foi um pesadelo. Insônia total e taquicardia. O corpo entrava em modo de pânico, tentando oxigenar o sangue que simplesmente não tinha oxigênio suficiente.
Eu sabia que A trilha do W no Torres del Paine é muito difícil para quem não treina, mas subi lares sem aclimatação é um golpe de mestre na fisiologia. No dia seguinte, meus batimentos estavam em 110 bpm em repouso. A decisão teve que ser tomada: ou eu tentava subir para o Valle de la Lua como previsto, ou eu descia.
A técnica da desescalada noturna
A maioria dos viajantes tenta aclimatar ficando em La Paz e descansando. O problema é que, para quem reage mal, ficar parado em 3.600 metros não ajuda muito. O meu plano foi radical: sair da cidade para dormir na periferia baixa.
Peguei um Uber para a Zona Sul, especificamente para o bairro de Irpavi. A altitude lá cai para cerca de 3.200 metros. Parece pouco (400 metros), mas em termos de oxigênio, essa diferença foi a salvação. Paguei cerca de 50 BOBs (cerca de R$ 35) pela corrida e cheguei a um hostel mais simples.
A regra de ouro que apliquei, e que recomendo para qualquer roteiro na categoria turismo-de-aventura, é "clima alto, dorme baixo". Você pode passear na cidade durante o dia, mas à noite, sua recuperação celular acontece onde o ar é mais denso. Naquela primeira noite em Irpavi, dormi seis horas seguidas. O alívio foi imediato. O corpo finalmente conseguiu entrar no modo de reparo.
O arsenal de farmácia local que venceu a dor de cabeça
Aqui entra a parte polêmica, mas necessária. Muita gente chega com medo da folha de coca por causa da associação com a cocaína. Na Bolívia, é remédio. É cultura. E funcionou melhor que o analgésico que trouxe do Brasil.
Eu não estava apenas mastigando a folha seca, que tem um gosto amargo de grama verde. Adotei o protocolo local:
- Mate de Coca: Pedia o "mate de coca con anís" em qualquer café da manhã. O anís ajuda na digestão, que também para nessa altitude. Custa cerca de 8 BOBs (R$ 5,50). Bebia três xícaras antes das 10h da manhã.
- Chewing (Boliva): Uma espécie de goma de mascar feita da folha, encontrada em qualquer mercado. Ótimo para manter na boca durante o dia e liberar os alcaloides lentamente. Deixa o maxilar levemente adormecido, sinal de que está funcionando.
- O milagre da farmácia: Fui em uma Farmacia del Sol e comprei o "Sorojchi Pill". É um remédio local, genérico, vendido sem receita, que combina ácido acetilsalicílico, cafeína e algo para enjoo. Custou 12 BOBs. Tomar um desses com o estômago meio cheio me dava três horas de alívio total para fazer fotos e caminhar.
Não estou dizendo para abandonar a Diamox (Acetazolamida). Se seu médico receitou, tome. Mas a combinação desses três elementos locais foi o que tirou eu da cama. O conhecimento local sobre o próprio corpo é superior a qualquer artigo de Wikitravel.

A estratégia alimentar que ninguém comenta
Outro erro clássico é achar que vai comer bem nos primeiros dias. O apetite some. A digestão fica lenta porque o sangue é desviado dos órgãos internos para os músculos tentando buscar oxigênio. Tente comer um prato de charque kanua (carne de lhama seca) no primeiro dia e você vai sofrer.
Eu reduzi drasticamente as porções de carne vermelha e fiquei em uma dieta de carboidratos simples e sopas. O caldo de galinha da lanchonete ao lado da Plaza San Francisco foi meu melhor amigo. O sal ajuda a reter líquidos, o que é crucial já que a desidratação é silenciosa em altitude. Eu bebia pelo menos 3 litros de água por dia, mas urinava pouco. O corpo estava segurando tudo.
Existe um Mito: É preciso ter gradil de ferro no estômago para comer em viagens de aventura na Amazônia, e o mesmo se aplica aqui. Não force. Coma pouco e muitas vezes. Embarque no trem do cable car (Teleférico) apenas para ver a cidade sem fazer esforço físico. As linhas amarela e azul ficam muito altas; evite-as nos dois primeiros dias. Prefira a linha verde e vermelha, que são mais baixas e oferecem vistas espetaculares do Illimani sem matar o pulmão.
O teste final e o custo real da aclimatação
No quarto dia, me senti pronta para fazer a "prova dos noves". Combinei com um guia local para uma subida leve até o Mirador Kili Kili, uma subida íngreme, mas curta. Levei o oxímetro de pulso que comprei na farmácia do aeroporto (custou 150 BOBs, uns R$ 100, e valeu cada centavo).
No topo, minha saturação estava em 88%. Não é ideal, mas era um avanço considerável em relação aos 78% do dia da chegada. O coração subiu para 130 bpm, mas voltou para 90 rapidamente. Era o sinal verde.
Para quem pensa em fazer trekking pesado ou expedições de altitude, como as discutidas no artigo sobre Expedição com agência vs. Autossuficiência em Montanha: o que vale para o Aconcágua?, a lição aqui ainda maior. Não tente ser herói. A aclimatação é uma ciência biológica, não uma prova de força de vontade.
A estratégia de dormir na Zona Sul me custou um taxi extra para cá e para lá a cada dia (cerca de 100 BOBs por dia em transporte), somado ao custo do hostel mais novo. No total, gastei talvez R$ 200 a mais em três dias apenas logística para "dormir baixo". Mas o custo real de ter cortado a viagem e ido embora com medo seria de milhares de reais em passagens desperdiçadas.
Sair de La Paz sem ter visto o Munaypata porque estava vomitando seria uma frustração eterna. Ao respeitar o soroche e usar a farmacologia local com responsabilidade, transformei o que seria um desastre em um estudo de caso de sobrevivência. A viagem continuou, o roteiro foi ajustado, e as fotos saíram perfeitas, mesmo com o coração disparado.

