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Turismo de Aventura

A trilha do W no Torres del Paine é muito difícil para quem não treina?

O W Trek exige resistência e pernas fortes, mas está longe de ser exclusivo para atletas; veja como avaliar se você está pronto para a Patagônia.

Camila Torres
Camila TorresEditora de Turismo de Aventura e Segurança7 min de leitura

Recebo com frequência e-mails de leitores apavorados com a ideia de enfrentar a Patagônia chilena. A imagem vendida em cartões-postais é de um paraíso inalcançável, reservado para alpinistas com bíceps de aço e capacidade pulmonar sobre-humana. A verdade é que essa idealização afasta mais gente do que a falta de dinheiro ou tempo.

Se você faz caminhadas ocasionais nos parques da sua cidade, sobe escadas em vez de pegar o elevador e não tem problemas articulares graves, o W Trek está perfeitamente ao seu alcance. A dificuldade existe, claro, mas ela é gerenciável. A travessia não exige que você seja um atleta de elite; ela cobra consistência, respeito ao próprio ritmo e uma logística de peso inteligente. O erro mais comum não é falta de "fôlego", é achar que o parque vai facilitar sua vida.

O condicionamento necessário é mais sobre hábito do que sobre força

Não subestime o percurso, mas elimine da cabeça a ideia de que você precisa correr maratonas ou treinar CrossFit diariamente por seis meses. O W Trek é um teste de resistência de longa duração, não de potência explosiva. São cerca de 70 a 80 quilômetros totais, dependendo dos pequenos desvios que você fizer, distribuídos geralmente em 4 ou 5 dias. Em 2026, com o aumento das reservas nos refúgios, muitos viajantes optam por levar apenas uma mochila de mão com roupas e lanches, enquanto o restante da bagagem é transportado por barcos ou transferências contratadas. Essa decisão por si só já reduz a exigência física em quase 40%.

Para quem vai carregar a própria casa nas costas — camping com barraca, comida e fogareiro — a história muda. Aí sim, falamos de cargas entre 12 e 18kg. O esforço muscular aumenta exponencialmente, especialmente nos aclives. Nesse cenário, o treino específico de musculação focado em core e pernas é indispensável. Mas se você pretende dormir nos refúgios (as famosas "hospedarias" do parque) e comer os menus de meia pensão, sua maior preocupação deve ser o tônus cardiovascular. Saber subir um lance de 15 andar sem parar duas vezes é um excelente "termômetro" inicial.

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O que realmente cansa no W

Muitos iniciantes focam nos grandes desníveis, como a subida para o Base das Torres, que tem quase 800 metros de ganho de altitude. Porém, o que realmente derruba o viajante desacostumado é a falta de estabilidade nas articulações. O terreno no Parque Nacional Torres del Paine é traiçoeiro. Grande parte do percurso não é terra batida, mas sim trilhas cobertas por cascalho solto, raízes expostas e lama — muita lama, dependendo da época da sua visita.

Caminhar sobre esse tipo de solo exige muito mais dos estabilizadores do tornozelo e joelho do que uma esteira na academia. É comum ver pessoas com excelente fôlego sentirem dores lancinantes na tíbia ou no tendão da patela no segundo dia simplesmente porque não treinaram em superfícies irregulares. O Vale do Francês, por exemplo, possui trechos técnicos onde você precisa usar as mãos para se apoiar em pedras, exigindo um pouco mais de coordenação motora.

Além disso, o vento é um componente físico a parte. Em Torres del Paine, rajadas de 60 km/h são consideradas uma "brisa". Ventos de 80 a 100 km/h ocorrem com frequência. Caminhar contra uma parede de ar gasta muito mais energia do que o deslocamento em si. Você não precisa ser forte para empurrar o vento, mas precisa ter reserva energética para manter o passo por horas seguidas sob essa resistência. Chegar exausto ao refúgio por causa de um vento forte pode transformar uma experiência mágica em uma noite de frio e recuperação difícil, onde o risco de hipotermia aumenta se o aquecimento corporal não for bem gerenciado.

Gerenciando o peso e a logística

Aqui entra a parte crucial da segurança. Muitos leitores me perguntam sobre "segredos" de preparo, mas o segredo é na verdade um cálculo de carga. Se você não treina intensamente, sua estratégia deve ser eliminar o peso excessivo da mochila. Cada quilo a mais no seu ombro é um fator de estresse multiplicativo para seus joelhos na descida do mirante Grey, que é longa e batida.

Neste ano, alugar equipamentos como bastões de trekking tornou-se uma prática comum e econômica em Puerto Natales. Assim como discuto ao analisar 5 equipamentos de esqui que você deve alugar, não comprar, para sua única viagem, levar bastões próprios do Brasil é um desperdício de bagagem. Eles são vitais para quem não tem técnica avançada de caminhada, pois transferem parte do impacto das descidas para os braços, preservando os joelhos. Um viajante sem treino com bastões economiza cerca de 20% de energia durante as subidas.

A alimentação também pesa. Carregar latas de atum e água potável para o dia inteiro é um erro de principiante. Os refúgios vendem água filtrada e kits de almoço (sanduíches embalados a vácuo e barras de cereal) que, apesar de caros (pense em pagar US$ 15 por um almoço simples), aliviam a carga. Se você vai fazer o acampamento selvagem, planear uma dieta desidratada por reidratação é fundamental. O corpo gasta calorias absurdas tentando se manter aquecido; comer mal é a forma mais rápida de desistir antes da hora.

O risco de subestimar o clima

A minha maior preocupação editorial aqui não é se você vai cansar, mas se você vai se colocar em risco por falta de preparo físico em condições climáticas adversas. A Patagônia tem um clima bipolar. Você pode iniciar a trilha com sol e temperatura amena e, duas horas depois, ser surpreendido por neve e granizo. Se você estiver lento demais por causa da falta de condicionamento, a janela de tempo segura para atravessar determinados trechos diminui drasticamente.

Uma pessoa treinada faz o trecho do Refúgio Paine Grande até o Vale do Francês em cerca de 3 horas e meia. Alguém sem preparo pode levar 5 ou 6 horas. Se a tempestade vier chegando às 14h, o indivíduo lento ainda estará na parte exposta do vale, longe da proteção do refúgio, enquanto o outro já estará tomando sopa quente. O receio não é o cansaço, é a exposição prolongada ao ambiente hostil. O parque resgata muitos visitantes por exaustão simplesmente porque eles superestimaram sua velocidade de caminhada e saíram de casa sem um plano B de tempo.

Por isso, insisto na noção de autossuficiência relativa. Conforme abordamos no debate sobre Expedição com agência vs. Autossuficiência em montanha: o que vale para o Aconcágua?, saber quando pedir ajuda ou contratar transporte de bagagem não é fraqueza, é gestão de riscos. Se você sabe que seus limites estão no básico, pague para o barco levar sua mochila pesada de Campamento Italiano para o Paine Grande. Isso garante que você termine o dia sorrindo para as montanhas, não amaldiçoando sua mochila.

Como montar um treino viável em 3 meses

Se você tem três meses pela frente, a boa notícia é que dá tempo de chegar lá. Não precisa de academia. O seu treino deve simular o máximo possível da realidade do parque. Esqueça a esteira nivelada. Procure parques urbanos com subidas. Se você mora em cidade plana, procure prédios com acesso à cobertura e faça séries de subida e descida de escadas carregando uma mochila de 5 a 8 quilos. Descer escadas com peso fortalece os quadris e prepara os joelhos para o impacto do cascalho.

Tente, no mínimo, três sessões semanais de 40 a 60 minutos de atividade aeróbica contínua (corrida leve, caminhada rápida ou bicicleta) e uma sessão mais longa no fim de semana. Essa sessão de fim de semana deve sagrada: uma caminhada de 3 a 4 horas ininterruptas. Se puder fazer isso em trilhas reais, melhor. O corpo precisa aprender a lidar com a monotonia do movimento repetitivo e o atrito do calçado. O teste final deve ser conseguir caminhar por 15 km num terreno leve sem sentir dores articulares no dia seguinte.

E não esqueça do psicológico. Treine sob chuva ou frio leve. Se você só treina no conforto do ar condicionado, o choque térmico no Chile vai desestabilizar sua mente. O cérebro precisa saber que você consegue continuar mesmo estando desconfortável.

Conclusão

Não deixe o medo de não estar "no topo da forma" matar o sonho da Patagônia. A trilha do W é democrática para quem tem saúde básica e bom senso. O maior segredo para quem não treina profissionalmente é aceitar a limitação: leve menos peso, use bastões, vá mais devagar e reserve mais dias para o mesmo trecho. Há um cálculo de segurança simples aqui: se você demorar muito, esteja atento ao relógio e à nuvens. A beleza das Torres é o prêmio para quem tem a persistência de colocar um pé na frente do outro, não a medalha de ouro do velocismo. Prepare as pernas, limpe a mente e vá — o parque está lá esperando por você, e ele é mais generoso do que parece.

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