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Segurança em Viagem

Roubado no Exterior? O Guia Definitivo para Fazer o B.O. em Inglês (e Não Morrer na Tentativa)

Perder documentos ou cartões no exterior é um pesadelo, mas sem o Police Report o seguro não paga. Aprenda o vocabulário exato e o passo a passo burocrático para resolver isso em uma delegacia turística.

Fernando Pacheco
Fernando PachecoCrítico de Hospedagem e Roteiros Urbanos7 min de leitura

O pavor bate no mesmo instante em que a mão toca o bolso vazio. Seja no metrô de Paris, na feira de Londres ou em uma praia de Barcelona, a sensação é gelada: você foi assaltado. O pânico inicial quer dominar, mas aí o cérebro começa a racionalizar os danos. Sem passaporte, você não embarca. Sem o boletim de ocorrência, o seguro viagem do cartão de crédito não vai pagar um centavo sequer do prejuízo.

A maioria dos viajantes brasileiros trava exatamente aqui. Como explicar para um policial espanhol ou francês o que aconteceu se o seu vocabulário vai até "please" e "thank you"? A realidade é que delegacias turísticas na Europa estão acostumadas com esse cenário, mas elas não vão adivinhar que você levou um iPhone 15 Pro Max e o cartão de crédito do Nubank se você não souber descrever o objeto e a circunstância do furto.

Depois de anos rodando o mundo e ter acompanhado dezenas de leitores em apuros, montei um protocolo de sobrevivência burocrática. Não é sobre fluência, é sobre precisão. O erro mais comum é achar que "robbed" serve para tudo ou sair da delegacia com um documento que não serve para a embaixada. O passo a passo abaixo é exatamente o que eu faria se estivesse com a mochila vazia agora.

Entenda a diferença entre "Theft" e "Robbery" antes de abrir a boca

Antes de pisar na delegacia, você precisa acertar o verbo. Em português usamos "roubo" para quase tudo, mas em inglês a distinção jurídica muda o atendimento e, muitas vezes, a gravidade do crime registrado.

  • Theft (ou Larceny): É o nosso "furto". Alguém te abordou, te distraiu com o golpe da mostarda e levou sua carteira sem que você percebesse no momento. Não houve ameaça física nem uso de arma.
  • Robbery: Isso é grave. Envolve força ou intimidação. Se ladrões te cercaram na saída do estádio e disseram "give me everything", isso é robbery. Gera um boletim diferente e, geralmente, uma prioridade no atendimento.

Se você confundir os termos, o policial pode achar que houve violência quando não houve, ou subestimar o caso. Na maioria das situações turísticas — carteira sumida no restaurante, bolsa cortada no ônibus — você está lidando com um theft (ou pickpocketing). Comece a frase assim: "I would like to report a theft". Isso já direciona o policial para o formulário correto de perda de bens, que é o que o seguro exige.

Atribulações burocráticas: o que levar na bolsa

Não apareça de mãos abanando. A falta de documentos só agrava a morosidade do processo. Para agilizar, você precisa ter salvo na nuvem (ou anotado em um papel, da forma antiga) os seguintes dados:

  1. Número do Passaporte: A polícia vai pedir o Passport Number. Sem isso, o boletim fica incompleto. Se roubaram o passaporte, onde você vai achar esse número? Na sua reserva de hotel ou no comprovante do visto Schengen que a embaixada analisou no seu extrato bancário. Se você não tem cópia de nada, o processo vai demorar o triplo.
  2. Endereço do Hotel: O policial vai perguntar "Where are you staying?". Tenha o endereço físico, não apenas "no Airbnb do João". Algo como "I am staying at the Hilton Hotel, located at 12 Park Lane".
  3. Descrição precisa dos bens: Para eletrônicos, anote modelo e cor. "A black iPhone 15, 128GB". Para cartões, o banco emissor. "Two credit cards, one from Itaú and one from Visa".

Ter isso escrito no celular (que felizmente ainda estava com você ou era um secundário) poupa você de gaguejar na hora da pressão.

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Passo a Passo na Delegacia: do "Olá" ao número de referência

Chegar ao posto policial (Police Station ou Precinct) é a parte mais difícil psicologicamente, mas a burocracia é linear. Siga esta sequência exata.

1. Entre e solicite o atendimento Ao chegar na recepção, diga: "I am a tourist and I was a victim of a theft. I need to file a police report." Na maioria dos países europeus, especialmente grandes capitais, há guichês específicos para estrangeiros. Se o policial não falar inglês, peça: "Do you speak English?". Se a resposta for negativa, peça para chamar um colega. Insista educadamente. Não saia até que alguém consiga traduzir o mínimo.

2. Sente-se e relate o cronograma Vão te entregar um formulário ou sentar com você para preencher o sistema. A primeira pergunta será sobre o horário e local.

  • "When did it happen?" (Resposta: "About 20 minutes ago" ou "Yesterday at 3 PM").
  • "Where exactly did it happen?" (Seja específico: "Near the Eiffel Tower, on the street corner").

Dica de ouro: não tente enfeitar. Diga o fato cru. "I put my bag on the chair and when I looked back, the wallet was gone".

3. Descreva o que sumiu (Stolen Items) Esta é a seção crítica para o seguro. Liste tudo. Se você mentir ou esquecer algo, não conseguirá incluir depois. Use frases curtas:

  • "My wallet, brown leather, containing 50 Euros and two credit cards."
  • "My digital camera, a Sony Cybershot."
  • "My Brazilian Passport."

Um erro comum é não declarar o dinheiro. Muita gente acha que vai ser taxada ou que não vão acreditar. Declare o valor exato, mesmo que sejam 20 Euros. O seguro costuma ter uma cobertura específica para dinheiro em espécie, geralmente limitada a algo como 200 ou 300 dólares.

4. O ponto crítico: revisar o documento antes de assinar

O policial vai imprimir o documento, apontar uma linha e dizer "Sign here". PARE. Leia. Mesmo que seu inglês seja básico, verifique os números e datas. Veja se o termo utilizado foi realmente "Theft" e não algo que sugira negligência da sua parte (como "Lost property", que significa "objeto perdido" e pode ser recusado por algumas seguradoras). Se algo estiver errado, peça para corrigir na hora: "This date is wrong, please correct it to today's date".

5. Receba o Reference Number

O documento final é o Police Report. Ele terá um número de referência no topo, algo como REF-2026-88492. Tire uma foto desse número. Envie para o seu e-mail. A seguradora, o consulado e o banco vão pedir esse código. Sem ele, para o mundo oficial, nada foi roubado.

O que fazer nos minutos seguintes à saída da delegacia

Com o papel na mão, o pânico diminui, mas a corrida contra o tempo continua. O B.O. é a chave de acesso para os próximos serviços.

Vá até o consulado brasileiro ou use o serviço digital Itamaraty. O B.O. estrangeiro é um dos documentos aceitos para emissão do passaporte de emergência ou do documento de viagem. Não espere o dia seguinte. Em 2026, o sistema de atendimento consular digital está mais robusto, mas apresentar o B.O. físico agiliza a identificação do cidadão.

Para o seguro, a regra é ouro: avise imediatamente. Muitas apólices exigem notificação em até 24 horas. Anexe fotos do B.O. (e da mochila rasgada ou da janela arrombada, se houver) no app da seguradora. Se você comprou um seguro terceirizado e não o do cartão, o processo é o mesmo: número do B.O., lista de itens e prova de posse (notas fiscais ou fotos antigas usando o objeto).

Aprendizado que ninguém te conta na agência de turismo

Fazer um B.O. no exterior é uma prova de frieza. Você sai de lá sentindo que perdeu meio dia de viagem e que a confiança na cidade foi abalada. É verdade. Mas o verdadeiro ganho aqui não é o papel, é o controle.

A maioria dos golpes turísticos explora a desorganização da vítima. O ladrão conta que você vai ficar paralisado, olhando para o nada, sem saber para onde correr. Ao ter esse roteiro mental gravado — saber exatamente o que dizer, qual delegacia é a turística e a diferença entre theft e robbery — você retira o poder do ladrão sobre o seu dia. O roubo acontece, o estrago é feito, mas o caos posterior é opcional.

Guarda esse guia no celular. E torça para nunca precisar usar o vocabulário de "I was robbed", mas saiba que, se precisar, você tem a ferramenta para virar o jogo e continuar a viagem.

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